O primeiro Atlas de Desertificação da Espanha, coordenado por especialistas da Universidade de Alicante (UA) e do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC), acaba de ser lançado no país. O estudo aponta que mais de 40% do território espanhol está ameaçado de degradação, que resulta de múltiplos fatores. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI em Madri O Atlas de Desertificação da Espanha, documento apresentado ao público na última quinta-feira (27), demonstra que 40,9% do território nacional têm mais de 50% de probabilidade de estar em processo de desertificação e 60,9% das zonas áridas estão expostas ao fenômeno. De modo geral, a área com mais de 50% de chances de estar sofrendo um processo de desertificação na Espanha ultrapassa 206 mil km². Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, “por desertificação entende-se a degradação da terra nas zonas áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, incluindo as variações climáticas e as atividades humanas”. A degradação, nesse caso, é entendida como a “perda de produtividade biológica, econômica e de biodiversidade”, como pontua o Atlas. O estudo destaca a importância de compreender corretamente o fenômeno, diferenciando-o da ideia de avanço do deserto e evitando confundi-lo automaticamente com outros processos, como a seca. Causas e consequências O clima é um dos elementos que mais contribuem para o processo de desertificação da Espanha. De fato, esse fenômeno ocorre em zonas áridas. E, segundo o registro mais recente, praticamente 67% do território espanhol é classificado como zona árida – incluindo as subdivisões: áreas subúmidas secas, semiáridas, estritamente áridas e hiperáridas. O Atlas recém-divulgado destaca que a aridez não equivale à desertificação e reforça que esta última só é desencadeada quando há ação humana inadequada e uso dos recursos naturais acima da capacidade de regeneração da própria natureza. Para exemplificar, a pesquisa menciona o nível de estresse hídrico vivido pela Espanha, considerado alto ou extremo em “extensas áreas” do país. Segundo o documento, em mais de 42% do território, o estresse hídrico é extremamente alto: consome-se mais de 80% da água doce disponível. A maior parte do consumo de água ocorre no setor agrário, seguido do urbano e do industrial. Outra causa apontada pelo Atlas para a desertificação é o abandono progressivo do campo, criando paisagens que são, entre outras coisas, mais vulneráveis a incêndios. E os incêndios, que muitas vezes atingem grandes proporções no território espanhol, transformam o solo e a vegetação, contribuindo para a degradação. Como consequências do processo de desertificação, o Atlas aponta a perda de fertilidade do solo, o retrocesso da vegetação natural, a diminuição de recursos hídricos e o abandono de usos tradicionais dos territórios. Respondendo perguntas em aberto O estudo foi motivado pela necessidade de cobrir um vazio que existia na comunidade científica. De acordo com o Atlas espanhol, em pleno século XXI, ainda não havia mapas confiáveis de desertificação. O texto diz que, para o Atlas Mundial da Desertificação (2018), os mapas previamente existentes “careciam de validade devido à sua subjetividade e falta de rigor”. A complexidade do assunto e as confusões conceituais que o tema pode causar dificultam a cartografia em questão. A pesquisa se propõe a superar as controvérsias ligadas a esse campo do conhecimento com base em três propostas. Primeiro, foram selecionados mais de 60 mapas relacionados a múltiplos aspectos que têm a ver com a desertificação. Depois, utilizou-se inteligência artificial para a criação de um mapa de probabilidade de degradação, citada como a proposta apresentada como sendo a parte “verdadeiramente inovadora” do trabalho científico. A IA “aprendeu” com base em evidências oficiais de degradação da Espanha, conectou tais evidências a uma série de indicadores e, a partir daí, criou um mapa de probabilidade de degradação. A terceira frente da pesquisa diz respeito ao estudo de 16 casos que são apresentados por mais de vinte especialistas relacionados a diferentes áreas conectadas à desertificação. Os casos “ilustram a diversidade de situações e interpretações em torno da desertificação e sublinham a necessidade de compreendê-la para aplicar medidas eficazes”. Aumento justificado As cifras de desertificação divulgadas no Atlas são significativamente mais altas que os números conhecidos pela ciência anteriormente. Enquanto o dado prévio indicava que cerca de 20% do território espanhol sofria com a desertificação, o atual estudo eleva essa marca a uma probabilidade de mais de 40%. E, ao considerar apenas as zonas áridas, o estudo indica que mais de 60% delas podem estar passando por esse processo. Os autores do Atlas abrem um parêntese para explicar essa diferença tão grande. Enquanto pesquisas anteriores estiveram focadas especialmente na degradação do solo, o Atlas considerou também os recursos hídricos. Is